João Rodrigues Baracho, está escrito no túmulo mais visitado do Cemitério do Bom Pastor neste Dia de Finados. Membros e órgãos em gesso e dos mais variados, coroas de flores, fotos, velas e ex-votos muitos ocupam todo o espaço reservado ao jazigo e mais; transbordam pelas adjacências; dominam completamente o cenário.
Pernambucano radicado em Natal no crepúsculo da década de 50, Baracho fez morada na comunidade do Carrasco, tornando-se vizinho de trabalhadores mal remunerados e desempregados em geral. O forasteiro chegou com sua esposa Josefa Valentin e contava então com 30 anos.
“Aqueles foram tempos de populismo (quando não foi?), e com a eleição do candidato do PSD a governador Aluízio Alves esse fenômeno se exacerbou” nos relata o acadêmico Claudio Wágner, da UERN. O sentimento de mudança e esperança que na política tinha sua manifestação mais avançada na campanha pelas reformas de base, no imaginário popular – segundo o acadêmico - deu fôlego a algumas das mais interessantes lendas urbanas de nossas plagas. Foi por essa época que ganharam força as histórias da papafigo Viúva Machado (ver mais na próxima edição) e do senador João Câmara, que teria pactuado com o Diabo pela sua vitória eleitoral. Baracho logo faria parte desse panteão.
Nos seus primeiros anos em Natal, Baracho sobreviveu de bicos pelo Alecrim, Ribeira e Cidade Alta. Farrista notório, sua fama de mulherengo e libertino foi o primeiro indício do potencial folclórico latente de sua figura – as carolas da comunidade enrubesciam ao pronunciar seu nome. Em suas andanças, acabou conhecendo um novo amor, Maria Lúcia, com quem passou a viver. Foi por essa época que, cansado de fazer bicos, operou outra importante mudança em sua vida: entrou pro comércio de baseados na comunidade do Carrasco.
A venda de cigarros de maconha aparentemente se mostrou bem mais rentativa que sua antiga ocupação. Os que ainda entre nós viveram aquele período relatam que rapidamente Baracho construiu um admirável patrimônio que ia de casas comerciais a granjas. Mas como o movimento das bocas parecia obviamente insuficiente para justificar seu progresso econômico em muito superior ao milagre brasileiro, logo surgiram murmúrios que davam conta de um pacto celebrado entre João Baracho e o Tinhoso de muitos nomes; a alma pelo dinheiro, diziam.
Tempos depois, o próspero protegido da Estrela da Manhã foi flagrado num arrombamento no bairro das Quintas, quando todos passaram a saber que era ele o autor dos sucessivos roubos de que o comércio natalense fora vítima. Esse flagrante bem poderia ter servido à desmitificação de Baracho, uma vez que agora se sabia que ele abastecia seus estabelecimentos comerciais com os produtos de arrombamentos que realizava com o apoio de um bando, daí fazendo sua fortuna. Mas não foi o que ocorreu.
João Rodrigues Baracho passou uns poucos dias na delegacia da Ribeira, após sua captura. A fuga – ao que se contava inexplicável – do pernambucano acabou por lhe render ainda maior notoriedade. Agora ele era a personalidade popular mais comentada da cidade; seu nome circulava Natal à boca miúda. Grande parte da população o temia vigorosamente, sobretudo após ganharem o conhecimento geral as suspeitas de que seria ele o autor da série de assassinatos de taxistas que horrorizava a capital; suspeitas que a polícia confirmaria.
Mas se grande parte da cidade tremia ao o som de seu nome, na comunidade do Carrasco onde fincou raízes e noutras com as quais mantinha vínculos ele era reverenciado. “Mão aberta”, como contam, atribuem-lhe uma gama de atos generosos e desprendidos em favor dos mais carentes que lhe renderam nessas comunidades a fama de Robin Hood natalense; alguns diziam que ele era um enviado de deus à terra pra cuidar dos mais pobres.
A essa altura, Baracho era citado pela cidade como “o incapturável”, “o homem que se invulta” (o tráfico nas comunidades, ele deixará há algum tempo sob os cuidados de suas muitas amantes). Natal era palco de uma intensa caça ao homem que todos acreditavam ser impossível pegar. De tempos em tempos surgiam novas histórias sobre fugas recentes e façanhas de Baracho em sua peleja com a polícia; assim crescia sua fama. Num dia de muito sol, após horas de espera numa emboscada, as forças policiais alvejaram o incapturável que fugiu buscando se esconder no morro dos Guarapes. Acuado e ferido, foi lá que morreu a balas João Rodrigues Baracho.
O corpo do homem que já não mais se invultava foi exibido por toda cidade em cima de um jipe, numa demonstração da força policial. A clássica e boa cena de faroeste chocou a população do Carrasco, que comovida lotou o cemitério do Bom Pastor em seu enterro. Cinco anos após sua morte violenta, Baracho operava nova façanha: um milagre. Uma senhora que alegava ter-lhe feito promessa comemorava a cura de sua filha paralítica. Depois dessa estreia, diversos outros milagres foram atribuídos a promessas feitas a Baracho. A igreja católica nem faz menção de reconhecer sua santidade, talvez por alguma recente cautela ao associar sua imagem a de pessoas com histórico de crimes e violência. Contudo, o povo continua a peregrinar para seu túmulo em busca de graças impossíveis. Baracho é um santo à moda antiga.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Santo à moda antiga
sábado, 19 de dezembro de 2009
Repórter para o mundo
As faculdades de jornalismo adotaram o lide como panaceia do texto contemporâneo, uma espécie de salvação do ramo profissional. Elas acreditam que o bom jornalismo está em crise, que a profissão não vive seu melhor momento. Pra superar esse mau momento, formam compositores de lides pouco criativos e profundidade, formam jornalistas. É por isso que prefiro o termo repórter, apesar de ser – essencialmente – uma distinção meramente emocional, pois um repórter é – tecnicamente – um jornalista. Mas sigamos com o repórter.
Tive a oportunidade de fazer uma reportagem sobre a vida de trabalhadores subempregados na cidade de Natal pra disciplina do professor Emanoel Barreto. Mais que uma boa reportagem (foi mesmo uma boa pauta, tanto que o texto sairá publicado com destaque na 4ª edição da revista tá na cara!, que sai em janeiro – não deixem de comprar), aprendi sobre o porquê de gostar tanto desta atividade.
Muito jornalistas se renderam a essa nova realidade de superinformação. São tantos dados, tantas coisas que sabemos cada vez mais rápido que sequer temos tempo de pensar a respeito. E os jornalistas do corriqueiro seguem derrubando mais e mais informação em cima do leitor.
Mas esse é o único caminho do jornalismo. Na reportagem, podemos superar a enorme limitação do excesso de informação inútil e transformá-lo em conteúdo. Existe um mundo vasto e dinâmico, onde forças gigantescas se confrontam cotidianamente; um mundo longe das faculdades de jornalismo. Interpretá-lo, trazer à tona seus aspectos mais sutis e determinantes, desnudá-lo é papel do repórter.
Portanto, acredito no grande papel que o repórter pode desempenha se tiver compromisso com a realidade social de seu povo, sensibilidade para os problemas de sua época, dedicação e honestidade para com seus concidadãos. Tudo isso faz do repórter mais que um produtor em série de lide, torna-lhe um agente ativo da compreensão de nosso mundo, que talvez instrumentalize àqueles que pretendem transformá-lo. É claro que um texto prazeroso e fluido ajuda, afinal, seria bom que no processo de entendermos o mundo não morramos de tédio.
É isso, lenta e preguiçosamente, estamos a voltar!
Felicidades a todos e bom fim de ano.
sábado, 21 de novembro de 2009
Carta Aberta a Luiz Gonzaga Belluzzo
Caro Belluzzo,
o futebol é fantástico pela imponderabilidade que torna possível a um time em momento difícil ver um de seus jogadores marcar um dificílimo gol de cabeça ao recuar para alcançar a bola, agarrado pela marcação adversária; imponderabilidade que torna possível uma mudança de postura, a posse de auto-confiança e a inauguração de uma fase vitoriosa a partir desse gol – um gol que pode valer um título, eis a mágica do futebol.
Nosso time – sob seu comando – enfrentou grandes dificuldades, a partir da decisão de disputar os jogos dentro de campo. Bem sabemos de como é possível ao juiz conduzir um jogo e ditar seu ritmo. E há ainda instrumentos mais sórdidos. Mas não só na arbitragem se corrompe o futebol, muitos outros interesses obscuros entram em campo antes dos jogadores, antes até da marcação da tabela. Verdades que todos conhecemos, mas que careciam de um porta-voz à altura. Estou orgulhoso que este seja um palmeirense.
Muito se ativeram os apaziguadores aos alegados exageros de sua reação. Dizem que esta destoou de sua biografia. Bem pelo contrário, a paixão – e mesmo a fúria – com que você reagiu, mostram que persiste um homem digno, esperançoso e – portanto – ainda capaz de se indignar.
Sua atitude foi um grande serviço ao futebol brasileiro, não apenas ao Palmeiras. Os milhões que gastam o dinheiro que lhes falta para o cinema, teatro e outras necessidades, comprando camiseta oficial e ingresso para assistir a seus times, esses milhões enfim são respeitados por um cartola.
Nunca estive tão orgulhoso de meu time. Mais que o título, nesse ano ganhei confiança no meu clube, a certeza de que nossas vitórias são frutos da garra e do talento; que estamos nos preparando para grandes conquistas. Sou hoje muito orgulhoso de ser palmeirense, e ando com a cabeça erguida. Por isso quero lhe agradecer, Belluzzo.
Angelo Girotto
Brasileiro e palmeirense
domingo, 18 de outubro de 2009
Juliano
A revista Tá na Cara! publica na sua próxima edição o perfil que resultou de uma longa e produtiva entrevista de 10 horas com o líder comunista Juliano Siqueira. Aqui, você lê com exclusividade a introdução do texto que estará nas bancas em setembro.
Naquela noite de 7 de setembro, meia dúzia de oradores já haviam se revezado em suas análises conjunturais e palavras de ordem, em cima de um pequeno trio elétrico, na rua lateral à Igreja Matriz de Macaíba. Era 1998, os movimentos sociais de todo país estavam mobilizados em seus estados para denunciar os efeitos da política neoliberal do governo de Fernando Henrique Cardoso e alertar à população sobre a necessidade de conduzir Lula e Brizola ao 2º turno das eleições presidenciais; menos de 1 mês depois, Fernando Henrique seria reeleito já no 1º turno.
A militância de partidos de esquerda, entidades estudantis e sindicatos agitava suas bandeiras e entoava palavras-de-ordem nem sempre convergentes. Na calçada – entre os manifestantes e a igreja – uma banda local testava os instrumentos para a apresentação que faria assim que os discursos se calassem. Em meio a essa algazarra, sequer pudemos ouvir quando o locutor anunciou o 7º orador da noite, que logo começou seu discurso: “Companheiros e companheiras, amigos e amigas”; depois destas poucas palavras fez uma breve pausa. Nos segundos entre a saudação de Juliano Siqueira e a continuação de seu discurso, uma onda súbita de silêncio teve início diante dos autofalantes e se estendeu até o último dos manifestantes, fazendo com que bandeiras baixassem por todo caminho como uma ola no estádio; a banda parou imediatamente sua inconveniente preparação e todos se calaram. Olhei para o amigo Anderson a meu lado; a nossa bandeira era a única ainda em pé – tratamos de baixá-la.
Juliano Homem de Siqueira Cavalcanti – então vereador em Natal e dirigente do PCdoB (Partido Comunista do Brasil) – prosseguiu sua intervenção que durou ainda 20 minutos, sem uma única interrupção. Falou do difícil momento que os país atravessava, da força que possuía o governo, nosso inimigo, e da necessidade de mantermos a esquerda unida, porque a batalha do outubro que se anunciava teria repercussão em nossas vidas por muito tempo além daquele ano de 1998; que era mister derrotarmos o projeto neoliberal e, ainda, que pra isso era necessário acumular forças, fazer alianças e persistir – com sua voz grave que calara a multidão, falou sem ser interrompido. 4 anos depois, Lula era eleito presidente da república com 52 milhões de votos. Na Avenida Paulista, poucos minutos após o fim da apuração e acompanhado por centenas de milhares de pessoas, eu aguardava a chegada de Lula para seu 1º discurso como presidente eleito do Brasil e lembrei das palavras de Juliano Siqueira 4 anos atrás e sorri um riso que ninguém reparou – naquele mesmo momento, todos sorriam, afinal.
compre tá na cara!
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Crucificado Jesus Cristo
Jesus Cristo, autoproclamado Rei dos Judeus, foi crucificado na tarde de ontem pelas forças do Império Romano, no monte Calvário, na região de Jerusalém. Ele foi acusado e condenado por blasfêmia ao se proclamar o Messias (enviado de Deus, segundo as tradições judaicas, que uniria o mundo numa comunidade universal e com seu sacrifício pagaria pelos pecados humanos). Até a zero hora local, dezenove horas pelo fuso-horário de Brasília, nenhum parecer médico oficial sobre seu estado foi publicado.
Caso não morra até o amanhecer, previsto para as cinco horas e quarenta e dois minutos em Jerusalém, em decorrência dos ferimentos e traumas psicológicos sofridos, Cristo será executado com a introdução de uma lança na região abdominal, que deverá perpassar pulmão e coração levando-o à morte, conforme a lei romana que dita que os condenados não podem viver até o nascer do sol.
Via Crucis
Em Jerusalém os relógios indicavam a chegada do meio-dia quando teve início o procissão dos três condenados que seriam crucificados em breve nos arredores da cidades, entre eles Jesus Cristo, suposto Rei dos Judeus, o Messias das profecias do Antigo Testamento da tradição judaica. Do Pretório de Pôncio Pilatos partiram em direção ao monte Clavário, onde seria realizada a crucificação.
Uma grande multidão se fez presente em todo trajeto. A grande maioria expressava seu contentamento pela condenação daquele que é considerado oficialmente um herege. Oficias das forças militares romanas garantiam o controle da situação e executavam os castigos físicos dos quais os três condenados eram vítimas. Eles ainda tiveram que carregam as cruzes nas quais seriam finalmente executados.
O trajeto, permeado por muitas paradas devido ao deplorável estado físico dos condenados, durou três horas, até todos, condenados, soldados e populares, chegaram ao local da crucificação. Eram quinze horas quando os três homem foram deitados em suas respectivas cruzes e tiveram seus punhos e tornozelos pregados na madeira. Então, os soldados responsáveis pela execução da condenação, eriçaram as peças de madeira e fincaram-nas em buracos previamente cavados no solo.
Dor e agonia
Dos três condenados que foram enforcados, Cristo foi o único que ainda teve o alento de vozes solidárias. Poucos indivíduos dentre a multidão se dispuseram a manifestar solidariedade ao hebreu que se dizia Messias. Na opinião de um desses que manifestaram seu apoio, as pessoas “têm medo de serem presas e perseguidas pelo romanos” caso demonstrem simpatia por Jesus Cristo.
Numa exortação pública à obediência, os soldados chicotearam insistentemente Jesus Cristo enquanto ele arquejava exaurido pelo peso que era obrigado a carregar. A menos de um terço do trajeto Jesus sucumbiu ao chão, impossibilitado de prosseguir. Um popular que tentou ajudá-lo a se levantar foi impedido e ele teve de se reerguer sozinho, estimulado pelo soldado que voltava a chicoteá-lo.
Desidratado e perdendo muito sangue, Jesus parecia não ter mais condições de prosseguir seu trajeto. Por isso permitiram que lhe fosse oferecido água, misturada com vinagre, que segundo a tradição local potencializa a reidratação do corpo. Os outros dois seguiram ignorados pela multidão, mas também apanhando muito.
O menino
Jesus Cristo nasceu na cidade de Belém da Judeia, território pertencente ao vasto Império Romano. Conta hoje, provável dia de sua morte, com trinta e três anos. Filho de um carpinteiro conhecido por José e sua esposa Maria, Jesus e seus seguidores sempre acreditaram que ele fora concebido por ação milagrosa do Espírito do Deus da religião hebréia. Seu própria teria declarado, pelo que reza a tradição oral, que seu advento não requisitou cópula, não sendo portanto fruto de nenhum evento natural previsto até seus dias.
A mãe de Jesus disse ter recebido de um anjo a mensagem de que gestaria e traria ao mundo o Filho de Deus. E foi com essa grande responsabilidade que o menino Jesus cresceu. Sua infância foi vivida quase toda em Nazaré, grande centro da província romana da Judeia. Por isso, ele é conhecido por muitos como Jesus de Nazaré, ou simplesmente o nazareno.
Mateus, um dos seguidores de Cristo (ou cristão como se tem chamado), disse que recenseamento realizado a pedido do imperador Otávio Augusto levou José, da cidade de Belém, a conduzir Maria até esta cidade. Lá teria nascido nascido Jesus, numa pobre manjedoura.
Contam os cristãos que três sábios reis teriam chegado à manjedoura guiados por uma estrela que se lhes apresentou por todo caminho. O trio real vindo da Pérsia teria ofertado em homenagem ao menino Deus uma grande riqueza em material aromático e ouro. Apesar disso, ao que se sabe, Jesus teve um infância humilde, sem grandes regalias.
Pouco conseguimos aferir sobre sua educação. Apenas sabemos que passou um longo período de sua adolescência no deserto, em companhia de tutores, onde acreditasse tenha sido instruído sobre as coisas do mundo ao qual se propôs salvar.
O homem
Acredita-se que Jesus morrerá virgem – é isso que defendem seus seguidores – mas há grande desconfiança sobre a natureza de suas relações com uma seguidora de nome Maria Madalena, notória prostituta a quem salvou de um apedrejamento utilizando-se de potente oratória, pela qual é admirado mesmo por seus inimigos. Jesus não casou, oficialmente não tem filhos e nem deixa herdeiros.
Jesus também não fez riqueza que pudesse desejar repassar. Levou uma vida de peregrinação e pregação. Seus dotes retóricos são famosos em toda região da Judéia, e apesar de ser pouco conhecido fora de seu território, ele tem mobilizado uma gama cada vez maior de seguidores.
O mito
Pregando a paz, Jesus fez da oratória sua grande arma. Pregando em toda região construiu sólida reputação entre uma expressiva parcela dos hebreus, que são o maior povo da região. Como a região está há muito tempo sob o domínio do Império Romano, sua liderança passou a ser a esperança de libertação de libertação de muitos judeus que se opunham ao domínio romano em seu território.
Mas Jesus não se propunha a ser o libertador político de seu povo. Num famoso episódio que percorre a regia através da transmissão oral, Jesus teria expulsado comerciantes de um templo e disse, na ocasião a célebre frase “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, declarando então que pretendia entrar no campo da política ou economia.
Jesus disse que era um líder espiritual, e nesse campo, seus seguidores lhe atribuem uma vasta quantidade de feitos notáveis – os milagres de Jesus. Segundo os cristãos, seu Messias teria curado um homem da lepra, transformado água em vinho e pedra em pão na festa de casamente de um parente, feito ressuscitar um homem entre outros.
O julgamento
A pena de morte foi solicitada pelos líderes religiosos do próprio povo de Jesus, que veem nele uma ameaça à integridade da fé de seu povo e também uma ameaça à sua liderança. O prefeito da Judeia, Pôncio Pilatos, foi quem chefiou julgamento. Pilatos declarou que via motivos para a condenação de Jesus, homem que julgou inofensivo na breve entrevista que nos concedeu (íntegra da entrevista segue na página 12).
No momento crucial do julgamento de Jesus, Pilatos apelou a uma suposta tradição judaica e declarou ao volumoso contingente de hebreus abaixo de seu púlpito "Tendes o costume de que eu vos livre um homem por ocasião da páscoa." Com isso, conforme nos disse na entrevista, Pilatos pretendia que o povo de Jesus o libertasse. Então foi oferecido à população que libertasse Jesus ou Barrabás.
Barrabás é o líder dos ilotas – uma das tribos da Judeia – e fora condenado à morte por ser líder da resistência judia contra o domínio romano. Ao contrário de Jesus, Barrabás defende o uso da força para conquistar seus objetivos. Entre os dois, a população preferiu libertar o guerreiro, condenando o pacifista à morte.
Numa cena dramática, Pôncio Pilatos lavou as mãos e disse que fazia o mesmo em relação ao destino de Jesus. Em três horas ele era crucificado após grande sofrimento e humilhação. Seus seguidores se espalharam por toda região numa tentativa de escapar à prisão. Jesus nunca mais verá o sol.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Transparência e liberdade de informação
A existência da liberdade de imprensa é um dos grandes mitos de nossa era. Fala-se no papel da internet como veículo incensurável e livre, transmissor irreprimível de informações e idéias. Nesse contexto, uma suposta transparência acerca da gestão do bem público, bem como do processo político, é alimento da propaganda oficial e do proselitismo das correntes oposicionistas.
Supostamente, pela rede mundial de computadores todas as informações nos chegam indiscriminadamente, tornando públicas as verdades mais escamoteadas, negligenciadas e escondidas. Portais de fiscalização do gasto público, blogues e até rede de e-mails surgem aos milhares com o discurso da efetivação democrática, da defesa da transparência.
Contudo, a própria multiplicidade de fontes de informação acaba por fortalecer uma tendência da imprensa tradicional que se reafirma na internet: a concentração da informação. Grandes portais promovem os blogues mais acessados; blogues independentes se cooperam e estabelecem parcerias com grandes portais, agindo cada vez mais profissionalmente e com o profissionalismo assumindo toda sorte de compromissos mercadológicos, de limites e novas necessidades.
O caso da Operação Impacto é exemplar na análise da ausência de transparência e liberdade de imprensa. A grande imprensa natalense pouco disse, apesar da extensa cobertura. Os blogues mais lidos se limitaram às fofocas e à “imparcialidade” e os poucos e pequenos veículos que ousaram falar algo a mais demonstraram a completa ineficiência de suas fontes, a incapacidade de apurar e falta de credibilidade que caracterizam sua ação amadora e independente.
Por outro lado, os movimentos que reivindicam novas formas de mobilização e novas bandeiras e que fazem da ética e da transparência suas bandeiras de ordem – apesar de estarem em voga – limitam-se a casuísmos e ações de impacto midiático. O que parece acontecer é que a transparência virou bandeira de interesses obscuros e a liberdade de imprensa permanece o que sempre foi: sonho de uns, ilusão de outros e estelionato em larga escala.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Cidade Aberta
Meus queridos,
faz tempo que desejo retornar às atividades deste blogue, contudo, sempre frustrado. Creio que minha coluna enfim se adaptou razoavelmente à vida de trabalhador com horários e essas coisas. O blogue permanece dedicado a crônicas, mas abrirei espaço para publicar outras coisas que tenho escrito e que desejo muito que possam ser lidas pela dúzia de frequentadores deste blogues - dúzia que pude perceber a grande importância de sua atenção e de seus comentários nessa minha longa e cansativa ausência.
A reportagem que segue foi publicada na segunda edição da Revista Tá na Cara!, que está nas bancas - comprem! Como acabei não percebendo alguns erros na finalização do arquivo para impressão, a reportagem saiu com falhas relevantes (trechos cortados), assim vai aqui uma chance de alguém lê-la e comentá-la. Ela é muita grande , mas alguém haverá de criar a coragem necessária para encará-lo. Até logo; estou feliz - ou algo parecido - em voltar.
"Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da convicção, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, não tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto ao Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário." (Charles Dickens)

Dos muitos caminhos que levam a Natal, quase todos passam pela entrada Sul, nos limites com o município de Parnamirim, via BR 101. Duas vias amplas, separadas por verdes canteiros carinhosamente regados; as margens adornadas por extenso tecido igualmente verdejante, flores e arbustos alegres e gentis dão as boas vindas aos felizes visitantes da Cidade do Sol, Cidade Presépio – a Cidade dos Reis Magos. Inclusive estes se apresentam, abraçando os recém-chegados e lhes apontando o melhor caminho com a mesma estrela que há tempos os guiava em outra viagem, em terra natal de outros messias.
No encontro da BR 101 com a 304, um vistoso viaduto em meio ao nada sinaliza a todos que a entrada larga, larga permanecerá por ainda muito tempo. O oposto se pode supor da paisagem. Obra tão ostensiva antecipa a leva de prédios – condomínios residenciais, supermercados etc – que aguardam seu momento de buscar os céus, juntar-se ao viaduto e aos milenares peregrinos. Na chegada, sabemos que estamos numa cidade que anseia pelo progresso – uma cidade aberta.
Isso é Natal
A cidade aberta tem muitos caminhos, após adentrada. É possível – no entanto – percorrendo apenas um deles se conhecer o que de mais apto ao desfrute ela oferece. Pelas largas vias da BR 101 se tem acesso à Estrada de Ponta Negra, que leva à praia homônima e ao ilustre Morro do Careca. Daí, através da Via Costeira ou da Rota do Sol, o visitante pode chegar aos extremos geográficos da zona turística de Natal. O cajueiro, que tamanho orgulho nos dá; a Barreira do Inferno, berço da política aeroespacial brasileira!; as belas praias do Litoral Sul e a zona livre de Pipa, nacionalmente festejada. Os hotéis de múltiplas estrelas à beiramar, o forte que não mais vigia, Ponta do Morcego e Praia do Meio, Litoral Norte, suas dunas e praias. Todos os cartões postais interligados e – graças à Ponte Newton Navarro, por meses a maior do país, dentre as estaiadas – a poucos minutos de viagem.
Em Natal, o melhor da culinária também está nas belas vias. Paladares do mundo procuram os sabores de nossa biodiversidade marinha, da criatividade de nossos chefes, dos aromas de nossos matos e da quentura de nossos caldeirões. Sofisticados menus engendram uma experiência parlativa única através do incremento de técnicas da nouvelle cuisine enriquecidas por ingredientes nativos. Onde mais se pode comer um risoto de camarão e castanhas de caju, com o típico gosto do bem adaptado coentro e pitadas de regionalismo aqui e acolá? A Noiva do Sol também muito agrada por seus preços – melhores em euro que em dólar, devido às intempéries cambiais. Um prato regional nos padrões da cozinha internacional pode sair por R$ 50, servindo a duas pessoas com fartura.
A beleza e receptividade de nossas mulheres encantam os cidadãos do mundo que se aventuram pelo fascínio dos trópicos, onde o continente faz a curva para prolongar tão belo litoral. Flanam nossas belas concidadãs pelas ruas ilustres da cidade aparentemente sem noção do efeito lírico de suas presenças. Às noites, encontramo-las – em grande número e graça – nas agitadas casas noturnas da Orla de Ponta Negra, exibindo todo potencial e alegria de viver que anunciamos ao mundo em comerciais ensolarados.
Na Via Costeira, um parque hoteleiro – moderno e dinâmico – oferece o que de melhor dispõe o setor, reservando aos hóspedes faixas de areia e mar praticamente exclusivas, que contam – além do policiamento da guarda pública – com guarida especial, mantida pelos estabelecimentos de capital internacional que fomentam o progresso na região.
Italianos, portugueses, espanhóis, escandinavos e outros tantos já fazem de Natal uma das cidades com maior população estrangeira de todo país. Praticante de um cosmopolitismo muito original e único, a eterna Nova Amsterdã não sai do pensamento de seus filhos que – em viagens recorrentes ao velho mundo e ao centro nervoso da Terra – propagandeiam as maravilhas e o orgulho deste lugar com ares de Europa perdida nos trópicos, saudosa de quando ambas foram Rodínia.
Quem conhece Natal através de suas principais vias – seu corredor turístico – sabe porquê da fama de cidade amena e aconchegante, segundo lar de tantos que já foram apenas visitantes. Toda a tranquilidade da pequena cidade com as opções da metrópole. Luxo, requinte, sofisticação e alma rústica conferem a Natal personalidade que por uns pode ser descrita como um tanto kitsch, por outros muito cool, mas que melhor se traduz nas palavras de um certo Pedro quando diz que isso é Natal e aqui ninguém se dá muito mal.
É manhã, estamos em agosto e faz sol. Por três dias a cidade mais ensolarada do Brasil esteve sob forte chuva. Foram três dias sem grandes aparições solares; praias vazias e ruas abarrotadas de guarda-chuvas e capas nos mais variados tons. Neste dia, faz sol. O céu limpo promete boa-aventurança. Turistas saem cedo para o café da manhã, alguns mal comem, na expectativa de conferir enfim as promessas que lhes trouxeram a estas terras: sol, praia e felicidade – que assim juntos até parecem redundantes.
As barracas a beiramar reforçam seus estoques de caranguejo, camarão, água de coco e cerveja. A cidade se prepara para a grande festa do mergulho e do bronzeado; a grande festa que esteve contida pelos dias de chuva.
Mal abriram-se os guarda-sóis, porém, nuvens persistentes ressurgem no céu, esvaziando as praias e abarrotando novamente as ruas de toda sorte de aparatos. Quem se planejara para um dia de praia, logo descobre que nossa cidade tem ainda muito mais a oferecer – sem contar com outras atrações turísticas potiguares, como os festivais gastronômicos que se oportunam de nosso “inverno” para trazer à tona hábitos pouco comuns na região, como o fundi.
Já chove há horas. O casal mineiro em lua-de-mel enfim desiste de esperar pelo sumiço das nuvens e resolve retornar ao hotel. Antes, comeram uma porção de camarão ao alho e óleo, outra de carne-de-sol – sem macaxeira – e duas ostras o amado, uma a amada; saíram satisfeitos. O noticiário alarma: até as ruas do centro e vias importantes da cidade – como a Prudente de Morais – estão alagadas; as águas invadem teatros, atolam carros, atrasavam trânsito. Mas daqui a poucas horas - passado o auge da torrente, - o trânsito voltará a fluir; estudantes universitários, profissionais liberais e funcionários públicos retomarão posse de seus ambientes de lazer e erudição; a Cidade Bela escoará suas mazelas, as belas vias estarão secas e o porvir será uma estrada ampla terminando numa praia ensolarada.
Que é isso?
Vindos da praia de Jenipabu, dois amantes terão o prazer de vislumbrar no caminho quase toda a cidade, vista do alto da ponte Forte-Redinha. As belezas de nosso litoral norte – por muito tempo – estiveram distantes dos turistas por um inconveniente flagrante: as precárias condições do trânsito na Ponte do Igapó. Com a novíssima Ponte de Todos, todos – sobretudo os visitantes – agora têm acesso privilegiado às praias pós Potengi sem ter que passar pelo emaranhado de bairros populares que constitui a Zona Norte de Natal. É por isso que, no meio do caminho, os simpáticos amantes perderam a oportunidade de conhecer o Loteamento José Sarney, situado a poucos minutos de seu trajeto, mas separado dele por incontáveis barreiras, a começar pela largura de suas vias. No loteamento José Sarney também chove há três dias; lá, como nas vizinhanças litorâneas e num certo quarto 220 de hotel na Via Costeira, comemorou-se muito o dia de céu limpo que a manhã anunciara. Alegria que – por seus peculiares motivos – era ainda maior que a de comerciantes e turistas.
Os moradores do Loteamento José Sarney comemoravam a possibilidade de ver a água lamacenta desocupar os cômodos de suas casas, invadidas pelas lagoas que se formam sempre que chove em Natal – sobretudo nos bairros populares com precária infra-estrutura. Lá – apenas na região mais atingida – moram cerca de 2 mil pessoas. Vemos desde casas de alvenaria bem acabadas até barracos deteriorados e insalubres, sem qualquer acabamento e cheios de infiltrações – uma visão trágica de castelos de cartas, sempre prestes a ruir.
Mas o ex-presidente e artista de gosto duvidoso não é o único político homenageado nas periferias de nossa capital.
O Km 6 – além de trecho de rodovia – também designa uma certa região da cidade. Lá não se vê quaisquer atrações turísticas e se não fosse por ligar parte da cidade à Rodoviária Interestadual talvez jamais tivesse conhecido um turista, mesmo desses que chegam de ônibus. O Km 6 é uma das regiões mais pobres e violentas de Natal. Escondida pelo muro de uma escola municipal, nas proximidades de um cemitério e de um depósito de lixo, é lá que encontramos a favela Prefeita Vilma Maia.
Inicialmente constituída de uns poucos barracos de lona e construções edificadas por materiais das mais diversas origens, a favela foi batizada em agradecimento às promessas de urbanização e construção de moradias decentes e hoje conta com centenas de moradores – alguns nem sabem quem é Vilma Maia. Aqui, as condições de moradia são ainda piores que no loteamento do presidente bigodudo autor de textos que enaltecem a sensualidade brejeira e o vigor ensolarado da terra e do povo brasileiros.
As fortes chuvas do mês de agosto fizeram pouco caso da autoridade constituída e também penalizaram a Favela Prefeita Vilma Maia.
As frágeis edificações onde surpreendentemente há gente abrigada formam uma imagem desagradável, que em vez de saltar aos olhos exige mesmo certo empenho para ser vista. Ocorre que em Natal as favelas, os amontoados de gente vivendo em condições deploráveis – a grande vergonha de nossa espécie: a miséria, o abandono – se escondem atrás de muros, condomínios de luxo e parques vistosos; em vez de a miséria subir os morros e ser vista por todos – como ocorre em outras cidades brasileiras –, em Natal a pobreza está escondida atrás dos morros ou está ruas e vielas adentro, exigindo que saiamos das belas vias para podermos vê-la.
Quando construída a Ponte de Todos, completou-se a interligação da cidade pelas belas vias. De quebra, livramo-nos da desagradável vista dos bairros pobres da zona norte: os pobres que ainda não foram transferidos para mais longe. (As comunidades da beira do Rio Potengi estão muito longe da imagem romântica que a literatura local pinta com seus pescadores viris, suas mulheres sensuais e sua infância ingênua; no lugar em que deveríamos ver redes malemolentes cortando o pôr-do-sol e atingindo as quentes águas com respingos prateados, reluzentes de esperança e encanto, o que se vê é fome, lombriga e bicho-de-pé.)
Mas não apenas com a sorte conta nossa amada cidade; há engenho na beleza que conservamos aos olhos desatentos – fato contundentemente provado pelo caso do bairro Brasília Teimosa.
Muitos meses antes da inauguração da ponte Forte-Redinha, algum membro de nossa inteligência – ou talvez tenha sido uma obra coletiva – percebeu que nas margens da agora bela Avenida Café Filho – principal via de acesso à nova ponte – havia elementos destoantes, sem nenhuma interlocução com a nova paisagem de progresso e harmonia. O elemento destoante, o borrão na obra da nova cidade que construímos se chamava Brasília Teimosa, um bairro que teve o mau gosto de abrigar casebres pobres e pobres. Mas a solução que estabeleceria o visagismo necessário logo surgiria.
Em reuniões com moradores do bairro, autoridades em nome de autoridades apresentaram uma idéia que poria fim ao inconveniente. Tratava-se da construção de um extenso muro que taparia a vista dos casebres para os que chegassem à Praia do Forte rumo ao Litoral Norte. Esse não seria apenas um muro - como aqui foi simploriamente apresentado -; seria um muro estilizado, colorido e alegre, onde cada residência teria seu portão exclusivo, como se fosse de sua casa – dezenas de portas de casas, sem casas.
Por motivos que os mais sensíveis dentre nós compreenderão, a população nativa recusou a proposta, alguns outros membros de nossa inteligência a acharam indecente e o muro apenas pode existir na cidade dos sonhos de seus idealizadores. Contudo, nem tudo está perdido. A especulação imobiliária está fazendo – com mais silêncio e eficácia – aquilo que os partidários do muro fracassaram em fazer.
Isso é Natal
Contando com a Prefeita Vilma Maia, existem pelo menos 70 favelas em Natal. A quase totalidade delas quase totalmente desconhecida pelos moradores de nossos Planos e Altos, Palumbus e Candelárias.
Na Cidade Presépio, o visitante que trouxer pouco ouro na algibeira não encontrará mais que uma estrebaria. As belas vias mostram uma cidade que existe e vive de uma outra, que não vemos. Uma cidade inteira muitas vezes a poucos metros – a um dobrar de esquina – do luxo e da ostentação. Uma cidade que nós omitimos não apenas dos visitantes, mas sobretudo de nós mesmos.
Em Natal, arbustos floridos originários da Sicília são vistos nos canteiros de nossas avenidas. Em Natal, convivendo harmonicamente com as plantas européias, encontramos um espécime da fauna intercontinental que também se adaptou formidavelmente a nosso habitat: o mosquito aedes egypti. Em Natal, é possível passar toda uma vida conhecendo tudo que há de melhor na cidade sem ter a vista agredida por uma favela, nunca; é possível chegar à adolescência, com sorte passar dela e envelhecer numa favela a poucos quilômetros do mar sem tê-lo visto, nunca. Em meio a tudo isso, em Natal, há um povo.
São dezenas, centenas de milhares de pessoas marginalizadas e invisíveis. Algumas delas servem garrafas com 290 mililitros de cerveja que custam 5 reais; outras, vendem livros que custam entre 15% e 25% de seus salários; algumas limpam nossas praias do coco que deixamos na areia, nossas ruas do lixo de nosso consumo diário, nossos banheiros de nosso cocô; estão em toda parte, confundido-se na paisagem. Essas pessoas usam uniformes que tornam sua presença em meio ao luxo menos agressiva; vestem suas melhores roupas e saem pra trabalhar. Quando acaba o expediente, elas entram em suas lotações apinhadas de gente e desaparecem por ruas e becos que não ousamos ver; perdem-se no emaranhado de esquinas que esconde a Cidade Feia, a Noiva da Miséria – voltam pra suas vidas e pra dos seus. Mas é claro que isso não nos interessa. Temos uma fama a preservar. Somos uma cidade amena. Aqui ninguém se dá muito mal. Noiva do Sol! Cidade Presépio! Terra de poetas e baobás! (Não devemos dobrar na esquina errada.)
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Defenestrado
Uma menina defenestrada e sua família pop star são protagonistas da novela de maior audiência do ano. Além de tornar célebres seus personagens,alavancar a audiência dos telejornais, dar à polícia oportunidade de usar seus aparelhinhos caros e escassos, proporcionar minutos de fama a psicólogos, psiquiatras, advogados, palpiteiros, mães de santo e psicóticos em geral; além de promover o turismo dos romeiros que visitam o local onde ainda existe a janela na qual o verbo foi conjugado (defenestrai-vos) e mobilizar centenas de mães que deixaram seus filhos trancados para ir às ruas exigir justiça; além disso tudo – como se já não fossem contribuições de sobra para um único roteiro -, a novela da hora ressuscitou o nunca morto debate acerca do papel da imprensa, que dia sim outro sim enche de entusiasmo nossos universitários ciosos de sua “responsabilidade para com a sociedade” e imbuídos do mais genuíno espírito auto-crítico. A pergunta mais sintética, exemplar dessa necessidade de auto-descobrimento é se seria o jornalista Deus?
Seria? Pergunta humilde, que contudo esconde um raciocínio muito sensato. Nós, da imprensa, ou aspirantes a da imprensa, temos grande responsabilidade “para com” os demais e devemos, portanto, esclarecer nossas relações com o divino. O caminho mais óbvio seria analisarmos o que constitui um jornalista, comparando seus elementos constituintes aos divinos e, por fim, pela analogia direta concluirmos se jornalista é de fato Deus. Mas é na obviedade que se esconde o perigo. Como faríamos essa análise? Questionar os métodos e o trabalho da imprensa pode ser compreendido como ato de censura. Ninguém regula a imprensa! Portanto, vamos pelo caminho mais aceito; analisaremos Deus e veremos o que há, Nele, de virtudes e defeitos jornalísticos, assinalando aquilo que for compatível ou incompatível com o exercício da profissão.
1º - Deus escreve certo por linhas tortas
Incompatível
Justificativa: segundo critérios do jornalismo objetivo oriundo da escola norte-americana contemporânea criadora do “lide”, se por linhas tortas escreves, errado estás a escrever.
2º - Deus se comunica através de sinais
Incompatível
Justificativa: que sinais são esses? Eu nunca vi um. Dizem que você tem que prestar atenção, acreditar, procurar e decifrar os sinais divinos em tudo. Se eu tenho que fazer isso tudo é porque o emissor é incompetente em chamar e prender a atenção alheia, incapaz de ser convincente por seus próprios argumentos e não se comunica com clareza – outro pré-requisito da noticiabilidade. E, principalmente, se Deus fala numa linguagem que eu – ovelha desgarrada e segundo os documentos oficiais público prioritário das pregações – sou incapaz de entender, vê-se claramente sua inaptidão para o ofício jornalístico, uma vez que não consegue estabelecer uma comunicação eficiente; de fato, muitos acreditam que se eu não compreendi o que Ele disse, é porque não houve comunicação. Deus não se comunica.
3º - Deus deve ser amado sobre todas as coisas
Compatível
Justificativa: como todos sabemos, jornalistas também querem ser amados sobre todas as coisas. Afinal, o que pode ser mais importante, útil e necessário que um jornalista?
4º - Deus se acha Deus
Compatível
Justificativa: como diz o professor Luciano, a maioria dos jornalistas também acha que é Deus.
5º - Deus é o único caminho para a salvação
Incompatível
Justificativa: um jornalista alinhado ao jornalismo objetivo – em cumprimento aos principais critérios de noticiabilidade – jamais pode excluir completamente a perspectiva de um outro ponto de vista ter validade.
Conclusão: ao contrário do que a maioria dos jornalistas pensa, jornalista não é Deus. Mesmo Tendo alguns defeitos em comum, está matematicamente provado que Deus não tem capacidade e nem está apto a se tornar um jornalista.
terça-feira, 20 de maio de 2008
Chega de saudades
Há pouco, escrevi uma reportagem – ou seria artigo? – sobre o ano de 1968, a juventude e as mudanças. As revoltas de Paris, no celebrado maio, e o recrudescimento da ditadura no Brasil com a imediata reação de nossa juventude são temas fascinantes, apesar dos contornos trágicos de ambas as experiências.
Contudo, não pude evitar sair da celebração à antiga rebeldia e entrar no debate clichê da década: o fim da rebeldia juvenil. Um amigo disse – certa vez – que sua geração, nascida na década de 60 e – portanto – em plena atividade nos anos finais da ditadura e no princípio de nossa débil democracia, era opressora em relação à minha, nascida em 80. Falou de gostos, sobretudo música, que permanecem e se impõe como padrão de qualidade em detrimento do que é produzido hoje.
Ele tinha razão. E um dos aspectos mais cruéis da ditadura sobre nossa geração é a ampla aceitação da idéia de sermos apáticos e acomodados. É tanto mais cruel quanto se torna maior a aceitação dessa idéia por nós mesmos, os filhos de 80. Pois foi esse o rumo que dei ao artigo – reportagem? – que fiz pra revista. Não admiti nenhum saudosismo, ainda mais de uma época que não vivi.
Ao ler a reportagem – artigo? – um amigo me trouxe de meu texto presunçoso de volta à realidade. Disse Rapaz, você tem toda razão. Não podemos aceitar esse fado de sermos inferiores. Veja a geração de 60: criativa, ousada e determinada. Não eram uns merdas como esses que nos tornamos. Ouvindo-o, pensei: de fato, aquilo que era época, ô saudades dos tempos que não vivi e sobretudo das pessoas que não conheci!

