Meus queridos,
faz tempo que desejo retornar às atividades deste blogue, contudo, sempre frustrado. Creio que minha coluna enfim se adaptou razoavelmente à vida de trabalhador com horários e essas coisas. O blogue permanece dedicado a crônicas, mas abrirei espaço para publicar outras coisas que tenho escrito e que desejo muito que possam ser lidas pela dúzia de frequentadores deste blogues - dúzia que pude perceber a grande importância de sua atenção e de seus comentários nessa minha longa e cansativa ausência.
A reportagem que segue foi publicada na segunda edição da Revista Tá na Cara!, que está nas bancas - comprem! Como acabei não percebendo alguns erros na finalização do arquivo para impressão, a reportagem saiu com falhas relevantes (trechos cortados), assim vai aqui uma chance de alguém lê-la e comentá-la. Ela é muita grande , mas alguém haverá de criar a coragem necessária para encará-lo. Até logo; estou feliz - ou algo parecido - em voltar.
Cidade Aberta
"Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da convicção, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, não tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto ao Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário." (Charles Dickens)

Dos muitos caminhos que levam a Natal, quase todos passam pela entrada Sul, nos limites com o município de Parnamirim, via BR 101. Duas vias amplas, separadas por verdes canteiros carinhosamente regados; as margens adornadas por extenso tecido igualmente verdejante, flores e arbustos alegres e gentis dão as boas vindas aos felizes visitantes da Cidade do Sol, Cidade Presépio – a Cidade dos Reis Magos. Inclusive estes se apresentam, abraçando os recém-chegados e lhes apontando o melhor caminho com a mesma estrela que há tempos os guiava em outra viagem, em terra natal de outros messias.
No encontro da BR 101 com a 304, um vistoso viaduto em meio ao nada sinaliza a todos que a entrada larga, larga permanecerá por ainda muito tempo. O oposto se pode supor da paisagem. Obra tão ostensiva antecipa a leva de prédios – condomínios residenciais, supermercados etc – que aguardam seu momento de buscar os céus, juntar-se ao viaduto e aos milenares peregrinos. Na chegada, sabemos que estamos numa cidade que anseia pelo progresso – uma cidade aberta.
Isso é NatalA cidade aberta tem muitos caminhos, após adentrada. É possível – no entanto – percorrendo apenas um deles se conhecer o que de mais apto ao desfrute ela oferece. Pelas largas vias da BR 101 se tem acesso à Estrada de Ponta Negra, que leva à praia homônima e ao ilustre Morro do Careca. Daí, através da Via Costeira ou da Rota do Sol, o visitante pode chegar aos extremos geográficos da zona turística de Natal. O cajueiro, que tamanho orgulho nos dá; a Barreira do Inferno, berço da política aeroespacial brasileira!; as belas praias do Litoral Sul e a zona livre de Pipa, nacionalmente festejada. Os hotéis de múltiplas estrelas à beiramar, o forte que não mais vigia, Ponta do Morcego e Praia do Meio, Litoral Norte, suas dunas e praias. Todos os cartões postais interligados e – graças à Ponte Newton Navarro, por meses a maior do país, dentre as estaiadas – a poucos minutos de viagem.
Em Natal, o melhor da culinária também está nas belas vias. Paladares do mundo procuram os sabores de nossa biodiversidade marinha, da criatividade de nossos chefes, dos aromas de nossos matos e da quentura de nossos caldeirões. Sofisticados menus engendram uma experiência parlativa única através do incremento de técnicas da nouvelle cuisine enriquecidas por ingredientes nativos. Onde mais se pode comer um risoto de camarão e castanhas de caju, com o típico gosto do bem adaptado coentro e pitadas de regionalismo aqui e acolá? A Noiva do Sol também muito agrada por seus preços – melhores em euro que em dólar, devido às intempéries cambiais. Um prato regional nos padrões da cozinha internacional pode sair por R$ 50, servindo a duas pessoas com fartura.
A beleza e receptividade de nossas mulheres encantam os cidadãos do mundo que se aventuram pelo fascínio dos trópicos, onde o continente faz a curva para prolongar tão belo litoral. Flanam nossas belas concidadãs pelas ruas ilustres da cidade aparentemente sem noção do efeito lírico de suas presenças. Às noites, encontramo-las – em grande número e graça – nas agitadas casas noturnas da Orla de Ponta Negra, exibindo todo potencial e alegria de viver que anunciamos ao mundo em comerciais ensolarados.
Na Via Costeira, um parque hoteleiro – moderno e dinâmico – oferece o que de melhor dispõe o setor, reservando aos hóspedes faixas de areia e mar praticamente exclusivas, que contam – além do policiamento da guarda pública – com guarida especial, mantida pelos estabelecimentos de capital internacional que fomentam o progresso na região.
Italianos, portugueses, espanhóis, escandinavos e outros tantos já fazem de Natal uma das cidades com maior população estrangeira de todo país. Praticante de um cosmopolitismo muito original e único, a eterna Nova Amsterdã não sai do pensamento de seus filhos que – em viagens recorrentes ao velho mundo e ao centro nervoso da Terra – propagandeiam as maravilhas e o orgulho deste lugar com ares de Europa perdida nos trópicos, saudosa de quando ambas foram Rodínia.
Quem conhece Natal através de suas principais vias – seu corredor turístico – sabe porquê da fama de cidade amena e aconchegante, segundo lar de tantos que já foram apenas visitantes. Toda a tranquilidade da pequena cidade com as opções da metrópole. Luxo, requinte, sofisticação e alma rústica conferem a Natal personalidade que por uns pode ser descrita como um tanto kitsch, por outros muito cool, mas que melhor se traduz nas palavras de um certo Pedro quando diz que isso é Natal e aqui ninguém se dá muito mal.
É manhã, estamos em agosto e faz sol. Por três dias a cidade mais ensolarada do Brasil esteve sob forte chuva. Foram três dias sem grandes aparições solares; praias vazias e ruas abarrotadas de guarda-chuvas e capas nos mais variados tons. Neste dia, faz sol. O céu limpo promete boa-aventurança. Turistas saem cedo para o café da manhã, alguns mal comem, na expectativa de conferir enfim as promessas que lhes trouxeram a estas terras: sol, praia e felicidade – que assim juntos até parecem redundantes.
As barracas a beiramar reforçam seus estoques de caranguejo, camarão, água de coco e cerveja. A cidade se prepara para a grande festa do mergulho e do bronzeado; a grande festa que esteve contida pelos dias de chuva.
Mal abriram-se os guarda-sóis, porém, nuvens persistentes ressurgem no céu, esvaziando as praias e abarrotando novamente as ruas de toda sorte de aparatos. Quem se planejara para um dia de praia, logo descobre que nossa cidade tem ainda muito mais a oferecer – sem contar com outras atrações turísticas potiguares, como os festivais gastronômicos que se oportunam de nosso “inverno” para trazer à tona hábitos pouco comuns na região, como o fundi.
Já chove há horas. O casal mineiro em lua-de-mel enfim desiste de esperar pelo sumiço das nuvens e resolve retornar ao hotel. Antes, comeram uma porção de camarão ao alho e óleo, outra de carne-de-sol – sem macaxeira – e duas ostras o amado, uma a amada; saíram satisfeitos. O noticiário alarma: até as ruas do centro e vias importantes da cidade – como a Prudente de Morais – estão alagadas; as águas invadem teatros, atolam carros, atrasavam trânsito. Mas daqui a poucas horas - passado o auge da torrente, - o trânsito voltará a fluir; estudantes universitários, profissionais liberais e funcionários públicos retomarão posse de seus ambientes de lazer e erudição; a Cidade Bela escoará suas mazelas, as belas vias estarão secas e o porvir será uma estrada ampla terminando numa praia ensolarada.
Que é isso?Vindos da praia de Jenipabu, dois amantes terão o prazer de vislumbrar no caminho quase toda a cidade, vista do alto da ponte Forte-Redinha. As belezas de nosso litoral norte – por muito tempo – estiveram distantes dos turistas por um inconveniente flagrante: as precárias condições do trânsito na Ponte do Igapó. Com a novíssima Ponte de Todos, todos – sobretudo os visitantes – agora têm acesso privilegiado às praias pós Potengi sem ter que passar pelo emaranhado de bairros populares que constitui a Zona Norte de Natal. É por isso que, no meio do caminho, os simpáticos amantes perderam a oportunidade de conhecer o Loteamento José Sarney, situado a poucos minutos de seu trajeto, mas separado dele por incontáveis barreiras, a começar pela largura de suas vias. No loteamento José Sarney também chove há três dias; lá, como nas vizinhanças litorâneas e num certo quarto 220 de hotel na Via Costeira, comemorou-se muito o dia de céu limpo que a manhã anunciara. Alegria que – por seus peculiares motivos – era ainda maior que a de comerciantes e turistas.
Os moradores do Loteamento José Sarney comemoravam a possibilidade de ver a água lamacenta desocupar os cômodos de suas casas, invadidas pelas lagoas que se formam sempre que chove em Natal – sobretudo nos bairros populares com precária infra-estrutura. Lá – apenas na região mais atingida – moram cerca de 2 mil pessoas. Vemos desde casas de alvenaria bem acabadas até barracos deteriorados e insalubres, sem qualquer acabamento e cheios de infiltrações – uma visão trágica de castelos de cartas, sempre prestes a ruir.
Mas o ex-presidente e artista de gosto duvidoso não é o único político homenageado nas periferias de nossa capital.
O Km 6 – além de trecho de rodovia – também designa uma certa região da cidade. Lá não se vê quaisquer atrações turísticas e se não fosse por ligar parte da cidade à Rodoviária Interestadual talvez jamais tivesse conhecido um turista, mesmo desses que chegam de ônibus. O Km 6 é uma das regiões mais pobres e violentas de Natal. Escondida pelo muro de uma escola municipal, nas proximidades de um cemitério e de um depósito de lixo, é lá que encontramos a favela Prefeita Vilma Maia.
Inicialmente constituída de uns poucos barracos de lona e construções edificadas por materiais das mais diversas origens, a favela foi batizada em agradecimento às promessas de urbanização e construção de moradias decentes e hoje conta com centenas de moradores – alguns nem sabem quem é Vilma Maia. Aqui, as condições de moradia são ainda piores que no loteamento do presidente bigodudo autor de textos que enaltecem a sensualidade brejeira e o vigor ensolarado da terra e do povo brasileiros.
As fortes chuvas do mês de agosto fizeram pouco caso da autoridade constituída e também penalizaram a Favela Prefeita Vilma Maia.
As frágeis edificações onde surpreendentemente há gente abrigada formam uma imagem desagradável, que em vez de saltar aos olhos exige mesmo certo empenho para ser vista. Ocorre que em Natal as favelas, os amontoados de gente vivendo em condições deploráveis – a grande vergonha de nossa espécie: a miséria, o abandono – se escondem atrás de muros, condomínios de luxo e parques vistosos; em vez de a miséria subir os morros e ser vista por todos – como ocorre em outras cidades brasileiras –, em Natal a pobreza está escondida atrás dos morros ou está ruas e vielas adentro, exigindo que saiamos das belas vias para podermos vê-la.
Quando construída a Ponte de Todos, completou-se a interligação da cidade pelas belas vias. De quebra, livramo-nos da desagradável vista dos bairros pobres da zona norte: os pobres que ainda não foram transferidos para mais longe. (As comunidades da beira do Rio Potengi estão muito longe da imagem romântica que a literatura local pinta com seus pescadores viris, suas mulheres sensuais e sua infância ingênua; no lugar em que deveríamos ver redes malemolentes cortando o pôr-do-sol e atingindo as quentes águas com respingos prateados, reluzentes de esperança e encanto, o que se vê é fome, lombriga e bicho-de-pé.)
Mas não apenas com a sorte conta nossa amada cidade; há engenho na beleza que conservamos aos olhos desatentos – fato contundentemente provado pelo caso do bairro Brasília Teimosa.
Muitos meses antes da inauguração da ponte Forte-Redinha, algum membro de nossa inteligência – ou talvez tenha sido uma obra coletiva – percebeu que nas margens da agora bela Avenida Café Filho – principal via de acesso à nova ponte – havia elementos destoantes, sem nenhuma interlocução com a nova paisagem de progresso e harmonia. O elemento destoante, o borrão na obra da nova cidade que construímos se chamava Brasília Teimosa, um bairro que teve o mau gosto de abrigar casebres pobres e pobres. Mas a solução que estabeleceria o visagismo necessário logo surgiria.
Em reuniões com moradores do bairro, autoridades em nome de autoridades apresentaram uma idéia que poria fim ao inconveniente. Tratava-se da construção de um extenso muro que taparia a vista dos casebres para os que chegassem à Praia do Forte rumo ao Litoral Norte. Esse não seria apenas um muro - como aqui foi simploriamente apresentado -; seria um muro estilizado, colorido e alegre, onde cada residência teria seu portão exclusivo, como se fosse de sua casa – dezenas de portas de casas, sem casas.
Por motivos que os mais sensíveis dentre nós compreenderão, a população nativa recusou a proposta, alguns outros membros de nossa inteligência a acharam indecente e o muro apenas pode existir na cidade dos sonhos de seus idealizadores. Contudo, nem tudo está perdido. A especulação imobiliária está fazendo – com mais silêncio e eficácia – aquilo que os partidários do muro fracassaram em fazer.
Isso é NatalContando com a Prefeita Vilma Maia, existem pelo menos 70 favelas em Natal. A quase totalidade delas quase totalmente desconhecida pelos moradores de nossos Planos e Altos, Palumbus e Candelárias.
Na Cidade Presépio, o visitante que trouxer pouco ouro na algibeira não encontrará mais que uma estrebaria. As belas vias mostram uma cidade que existe e vive de uma outra, que não vemos. Uma cidade inteira muitas vezes a poucos metros – a um dobrar de esquina – do luxo e da ostentação. Uma cidade que nós omitimos não apenas dos visitantes, mas sobretudo de nós mesmos.
Em Natal, arbustos floridos originários da Sicília são vistos nos canteiros de nossas avenidas. Em Natal, convivendo harmonicamente com as plantas européias, encontramos um espécime da fauna intercontinental que também se adaptou formidavelmente a nosso habitat: o mosquito
aedes egypti. Em Natal, é possível passar toda uma vida conhecendo tudo que há de melhor na cidade sem ter a vista agredida por uma favela, nunca; é possível chegar à adolescência, com sorte passar dela e envelhecer numa favela a poucos quilômetros do mar sem tê-lo visto, nunca. Em meio a tudo isso, em Natal, há um povo.
São dezenas, centenas de milhares de pessoas marginalizadas e invisíveis. Algumas delas servem garrafas com 290 mililitros de cerveja que custam 5 reais; outras, vendem livros que custam entre 15% e 25% de seus salários; algumas limpam nossas praias do coco que deixamos na areia, nossas ruas do lixo de nosso consumo diário, nossos banheiros de nosso cocô; estão em toda parte, confundido-se na paisagem. Essas pessoas usam uniformes que tornam sua presença em meio ao luxo menos agressiva; vestem suas melhores roupas e saem pra trabalhar. Quando acaba o expediente, elas entram em suas lotações apinhadas de gente e desaparecem por ruas e becos que não ousamos ver; perdem-se no emaranhado de esquinas que esconde a Cidade Feia, a Noiva da Miséria – voltam pra suas vidas e pra dos seus. Mas é claro que isso não nos interessa. Temos uma fama a preservar. Somos uma cidade amena. Aqui ninguém se dá muito mal. Noiva do Sol! Cidade Presépio! Terra de poetas e baobás! (Não devemos dobrar na esquina errada.)